
O brasileiro mais rico continua o mesmo: Eduardo Saverin. Pelo segundo ano seguido, o cofundador do Facebook lidera o ranking de bilionários do país, segundo a Forbes 2025. O patrimônio estimado é de R$ 227 bilhões — um salto de 45,5% em relação ao ano anterior — e a distância para o segundo lugar é enorme. Vicky Sarfati Safra e família aparecem com R$ 120,5 bilhões, quase R$ 100 bilhões a menos, o que deixa claro quem dita o ritmo no topo.
O que explica esse avanço? Em uma palavra: tecnologia. A valorização de empresas ligadas à inteligência artificial puxou os ganhos de diversas big techs, e a Meta — dona de Facebook, Instagram e WhatsApp — surfou essa maré. Mesmo como acionista minoritário, Saverin viu sua fatia crescer junto com o valor de mercado da companhia. Some a isso uma carteira de investimentos ativa e diversificada e o resultado aparece na linha final do ranking.
Quem é o brasileiro no topo e como ele chegou lá
Nascido em São Paulo em 1982, Saverin tem uma história que mistura família empreendedora, migração e tecnologia. Neto de Eugênio Saverin, fundador da marca infantil TipTop, ele se mudou aos 11 anos para Miami e mais tarde estudou Economia em Harvard. Foi lá que conheceu Mark Zuckerberg e entrou na fundação do Facebook, em 2004, como responsável pela parte financeira e de negócios.
A parceria não durou. Divergências internas acabaram em disputa judicial e acordos extrajudiciais. O conflito ganhou o cinema em 2010 com o filme A Rede Social, em que Andrew Garfield interpretou Saverin e Jesse Eisenberg viveu Zuckerberg. A partir de 2009, ele se estabeleceu em Singapura, onde construiu sua base e ampliou sua atuação como investidor.
Em 2015, lançou a B Capital, gestora de venture capital criada para investir em startups de tecnologia. A firma já destinou ao menos US$ 150 milhões a novos negócios e ajudou a espalhar o risco do patrimônio para além da Meta. O foco é crescimento de longo prazo: empresas com tecnologia escalável e soluções de software, saúde digital e serviços financeiros tendem a aparecer com frequência nesses portfólios. O movimento tem lógica estratégica: enquanto o ciclo das big techs depende de bolsas e juros, o capital de risco aposta em inovação antes dela virar lucro.
Singapura também faz parte da equação. O país virou um hub financeiro e tecnológico do Sudeste Asiático e encurtou a distância de Saverin para mercados como Índia, Indonésia e Vietnã — hoje polos de startups e de consumo digital. Estar perto desses ecossistemas ajuda a encontrar deals antes da concorrência e a diversificar em moedas, setores e geografias.
Mesmo com a diversificação, a Meta segue como peça central. O bom desempenho da empresa, reforçado por resultados fortes no fim de 2023, aumentou a riqueza do cofundador. Em ciclos de alta como o da IA, quem tem participações antigas em gigantes de tecnologia costuma ver ganhos em escala, porque a multiplicação vem em cima de bases já muito grandes.

O que a lista de 2025 revela sobre dinheiro no Brasil
A Forbes mapeou 300 brasileiros com mais de R$ 1 bilhão em patrimônio. São 240 homens, que somam R$ 1,68 trilhão, e 60 mulheres, com R$ 343,7 bilhões. A desigualdade de gênero continua nítida no topo: Vicky Safra é a única mulher entre os dez mais ricos. A família Safra, tradicional no setor financeiro, mantém presença há décadas entre os maiores patrimônios do país.
O retrato do ano mostra um mercado em movimento. Mais da metade dos nomes — 56,33% — aumentou a fortuna. Outros 20,6% viram o patrimônio encolher, e apenas um bilionário ficou estável. Há 31 estreantes, gente que cruzou a barreira do bilhão pela primeira vez, o que indica janelas de liquidez, vendas de empresas, reprecificação de ativos e reabertura de mercado para negócios que estavam represados.
Os pesos-pesados tradicionais continuam presentes — financeiro, varejo, commodities, construção e agronegócio. Mas a fotografia deste ciclo vem com uma moldura tecnológica. A onda de IA levou valor para todo o ecossistema: fabricantes de chips, nuvem, software corporativo, publicidade digital e plataformas sociais. Essa maré não beneficia só empresas americanas: investidores globais com posições em tech — caso de Saverin — capturam parte relevante dessa valorização.
Vale notar como o método do ranking influencia os números. A Forbes estima o patrimônio com base em participações em empresas abertas e fechadas, preços de mercado, informações públicas e dados reportados por executivos e famílias. Quando as ações sobem, especialmente em setores de grande capitalização, o efeito no topo da lista é imediato. Em anos de euforia, como os marcados por avanços em IA, a distância entre os primeiros colocados tende a aumentar — exatamente o que se vê na diferença entre Saverin e Vicky Safra.
Outro ponto que ajuda a explicar a ascensão do líder: tempo de mercado. Saverin entrou no jogo cedo, acumulou exposição a um ativo que virou uma das maiores empresas do planeta e manteve a posição por décadas, em paralelo a uma estratégia de venture capital. Essa combinação — legado tech mais diversificação — é rara e poderosa. Para novos bilionários da lista, o caminho costuma ser diferente: vender uma participação relevante da empresa, abrir capital num momento favorável ou herdar um conglomerado já consolidado.
A presença de 31 novatos reforça a ideia de que há oxigênio para quem cria valor em nichos específicos. Negócios regionais com escala nacional, empresas B2B pouco visíveis ao público e grupos familiares que reorganizaram seus ativos aparecem entre os estreantes típicos de um ano assim. O movimento também conversa com a recuperação de valuations em setores que haviam sofrido nos ciclos de juros altos, como tecnologia e varejo.
A fotografia de gênero na elite do patrimônio continua chamando atenção. Só uma mulher no top 10 evidencia um problema antigo: menor participação feminina em cargos de comando, menor acesso a capital e concentração de grandes fortunas em dinastias masculinas. Ainda assim, o avanço no número total de mulheres bilionárias e o aumento do patrimônio combinado indicam um, ainda que lento, descolamento dessa tendência.
Para além dos nomes, a lista captura mudanças de direção da economia. Quando tecnologia puxa o mercado, investidores com perfil global ganham protagonismo. Quando commodities disparam, grupos de mineração, siderurgia e agro aparecem no topo. O ano de 2025, pelo que mostra a liderança isolada de Saverin, fala mais alto sobre software, plataformas e dados do que sobre produtos físicos.
Do lado da Meta, a agenda recente — redução de custos, foco em eficiência e avanço em produtos baseados em IA — mexeu com as expectativas. É um ciclo típico das big techs: resultados trimestrais fortes puxam revisões de analistas, que elevam preço-alvo e giram as engrenagens do mercado. Quem está posicionado, como Saverin, captura esse movimento sem precisar vender. Isso ajuda a entender por que a fortuna dele cresceu tanto em tão pouco tempo.
Na prática, o topo do ranking de bilionários brasileiros volta a conectar Brasil e mundo. O líder nasceu em São Paulo, estudou nos EUA, mora em Singapura e investe em empresas com clientes em vários continentes. É uma história de globalização do capital, em que a origem do passaporte pesa menos do que a qualidade dos ativos. Para uma economia como a brasileira, que costuma depender de ciclos de commodities e consumo interno, ter uma liderança baseada em tecnologia global muda a narrativa.
Do ponto de vista do investidor, há dois recados. Primeiro: concentração em ativos vencedores rende muito quando o ciclo ajuda, mas aumenta a volatilidade quando o vento vira. Segundo: diversificar com tese e paciência reduz risco de evento único — exatamente a lição de quem ainda tem a Meta no centro, mas construiu uma gestora de venture capital para buscar o próximo pé de crescimento.
O que vem pela frente? A continuidade do rally de IA ainda é a pergunta que manda no mercado. Se a tecnologia entregar ganhos de produtividade e novas fontes de receita, o setor pode sustentar valorizações. Se os juros subirem ou os resultados decepcionarem, o ajuste chega rápido. Para o ranking de bilionários, isso significa que a distância entre os primeiros pode encolher — ou aumentar ainda mais.
Por ora, o retrato é claro: Saverin abriu vantagem e segue no topo com folga. A lista de 2025 também dá sinais de renovação, com novos bilionários e revalorização de patrimônios. No meio disso tudo, uma certeza: o dinheiro grande está correndo atrás de tecnologia — e os brasileiros mais ricos que surfaram essa onda aparecem na primeira fila.
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