JBS prevê queda no preço do boi em 2026 e paralisa fábricas no MT

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JBS prevê queda no preço do boi em 2026 e paralisa fábricas no MT
maio 2, 2026

O mercado de carne no Brasil está prestes a enfrentar uma virada de chave. Gilberto Tomazoni, CEO da JBS projetou que o esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China, previsto entre junho e julho de 2026, deve pressionar os preços da arroba para baixo na segunda metade do ano. A previsão foi feita durante o 12º Fórum Anual de Investimentos do BrasilSão Paulo, organizado pelo Bradesco BBI.

A situação atual é um paradoxo: enquanto os frigoríficos lutam por animais caros hoje, preparam-se para um excedente de oferta amanhã. Tomazoni explicou que dois fatores colidirão no segundo semestre de 2026: a redução do fluxo de exportações para o gigante asiático e o aumento da oferta doméstica, especialmente com a entrada de bois confinados no mercado. "Estamos vendo duas coisas ao mesmo tempo: possível redução do fluxo para a China e aumento da oferta doméstica", afirmou o executivo.

Paralisações como estratégia de sobrevivência

Antes que a queda prevista ocorra, o setor vive um momento de tensão aguda. Os preços atuais estão em níveis recordes, tornando inviável a compra de gado para muitos abatedouros. Em resposta, a JBS, através de sua subsidiária Friboi, anunciou férias coletivas de aproximadamente 20 dias para funcionários de duas unidades em Mato Grosso: as fábricas de Água Boa e Pedra Preta. O paramento das operações começou em 13 de abril de 2026.

Não se trata apenas de economia de custos, mas de uma manobra estratégica comum quando os margens de lucro são comprimidas pela alta dos insumos. Ao reduzir o volume de abate, a empresa evita operar com prejuízo ou margens negativas. A competidora MBRF seguiu o mesmo caminho, reduzindo turnos de trabalho em sua unidade em Várzea Grande, também em Mato Grosso. É um sinal claro de coordenação setorial: ninguém quer comprar caro para vender barato depois.

O recorde histórico da arroba

Para entender a gravidade das medidas, basta olhar para os números. O indicador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) atingiu R$ 365 por arroba em São Paulo, acumulando uma apreciação superior a 14% no ano — um recorde nominal para o mercado. Em Mato Grosso, polo crucial da pecuária brasileira, os preços do boi gordo variam entre R$ 357/@ e R$ 360/@.

O diferencial mais saliente é o prêmio pago pelo gado destinado à China. Animais classificados como "boi China" alcançam até R$ 365/@, representando um premium de até R$ 8/@ sobre o gado regular. Essa diferença cria uma corrida competitiva brutal pelos melhores lotes. As escalas de abate encolheram drasticamente, ficando entre 4 e 8 dias, indicando uma escassez severa de animais prontos para o matadouro.

A dinâmica da cota chinesa

A dinâmica da cota chinesa

O cenário é complexo porque envolve regras internacionais rígidas. Nem todos os frigoríficos brasileiros têm autorização para exportar diretamente para a China. Isso coloca unidades como as da Friboi em desvantagem estratégica: elas dependem exclusivamente do mercado interno, sem acesso aos preços premium pagos pelos compradores chineses. Enquanto isso, empresas autorizadas disputam freneticamente suas cotas antes que expirem.

Há ainda a incógnita da redistribuição de cotas. Se outros países não conseguirem cumprir seus volumes devido a restrições sanitárias, o Brasil poderia se beneficiar. No entanto, Tomazoni foi cauteloso: "Há muitos questionamentos sobre a possibilidade de outros países não cumprirem suas cotas e o Brasil se beneficiar, mas isso vai demorar para sabermos. Os países vão tentar cumprir suas cotas e só depois, no final do ano, será possível ver quem conseguiu e quem não conseguiu".

O que esperar nos próximos meses?

O que esperar nos próximos meses?

A curto prazo, os fundamentos mantêm os preços altos. A retenção de fêmeas em ciclos anteriores reduziu a disponibilidade de animais terminados. A demanda global permanece robusta, conforme destacado por Tomazoni: "Somos muito positivos com a demanda". Contudo, a reação da indústria — com paralisações e redução de ritmo operacional — demonstra que existe um teto para essa alta. Quando o preço sobe demais, a própria cadeia freia o consumo e a produção.

O caso brasileiro espelha desafios globais. Nos Estados Unidos, processadores também enfrentam margens apertadas e fechamento de instalações, embora o rebanho americano tenha se recuperado menos que o brasileiro, sugerindo que a restrição de oferta pode piorar lá. Para o Brasil, o ponto de inflexão crítico continua sendo o esgotamento da cota chinesa entre junho e julho de 2026. Até lá, o poder de negociação está nas mãos dos pecuaristas; depois disso, o equilíbrio tende a voltar para os frigoríficos.

Perguntas Frequentes

Por que a JBS paralisou fábricas em Mato Grosso?

A paralisação das unidades em Água Boa e Pedra Preta, via férias coletivas, é uma resposta direta aos preços elevados do gado. Com a arroba atingindo recordes nominais, a compra de animais tornou-se economicamente inviável para manter margens saudáveis. Reduzir temporariamente o volume de abate permite que a empresa evite operar com prejuízo enquanto aguarda uma estabilização dos preços de insumos.

Quando se espera que o preço da arroba caia?

Gilberto Tomazoni projeta que a pressão descendente sobre os preços ocorrerá na segunda metade de 2026. Isso coincide com o esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China, esperado entre junho e julho daquele ano, combinado com o aumento da oferta doméstica de gado confinado.

O que é o "prêmio China" no preço do boi?

É a diferença de valor paga por animais destinados à exportação para a China em comparação com o gado para o mercado interno. Atualmente, esse premium pode chegar a R$ 8 por arroba, refletindo a alta demanda e a qualidade específica exigida pelo mercado chinês, além da vantagem competitiva para frigoríficos autorizados a exportar para lá.

Como a MBRF reagiu à alta dos preços?

Seguindo a mesma lógica da JBS, a MBRF implementou ajustes operacionais, incluindo a redução de turnos de trabalho em sua fábrica localizada em Várzea Grande, Mato Grosso. Essa medida visa controlar os custos e adaptar a capacidade produtiva à disponibilidade limitada e cara de matéria-prima (gado).

Existe chance do Brasil ganhar mais cotas de exportação?

Sim, há possibilidade, mas ela só ficará clara no final do ano. Se outros países exportadores não conseguirem cumprir suas quotas devido a restrições sanitárias ou logísticas, as cotas remanescentes podem ser redistribuídas. O Brasil poderia se beneficiar dessa realocação, ampliando seu acesso ao lucrativo mercado chinês.